segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

TRÊS TIPOS DE CIÊNCIAS

                                           
Para Ken Wilber, a ciência é a religião de hoje. Se a ciência estabelecer algo, deve ser verdadeiro. Se a ciência não estabelecer algo, não pode ser verdadeiro. É assim que a filosofia moderna a tem.
Mas a ciência abrange toda a realidade? Já que a ciência é baseada no que os sentidos físicos (geralmente com a ajuda dos instrumentos) nos dizem, é sensato depender totalmente desta fonte de conhecimento? Quem já enxergou as emoções ou os pensamentos com o olho físico? Isso é razão suficiente para negar a existência deles? Ou estamos deixando algo escapar?
"Ausência de prova não é prova de ausência", podemos dizer. Acreditar que a ciência abrange TODA a realidade não é algo realmente científico, porque temos que negar outras formas de experiência humana, como nossos sentimentos de identidade mais profundos. Isso é o que podemos chamar de "cientismo".
Veja que a própria ciência não tem rejeitado a crença na alma, nas esferas superiores, nas realidades transcendentais, como muitas pessoas instruídas acreditam. Está na hora de corrigirmos este status extremamente desigual.
Basicamente, a realidade abrange pelo menos três domínios:
1. Aquele que podemos ver com nossos sentidos
2. Aquele que podemos ver com nosso "olho interior"
3. Aquele que vê, tanto externamente quanto interiormente: o Self
Repare que todos os três podem ser estudados de uma maneira científica! Mas qual é o significado de "científico"?
Wilber argumenta que a ciência de maneira alguma deve implicar em materialismo. Na verdade, ciência envolve três elementos:
1. Seguir uma instrução, injunção ou paradigma
2. Apreender algo sobre esta realidade específica
3. Comparar nossas descobertas com as dos outros
Esses três "elementos" operam na ciência de uma forma óbvia: um astrônomo (1) olha através de um telescópio, (2) observa uma certa região do universo e (3) discute suas descobertas com colegas astrônomos (e NÃO conosco, meros mortais, um ponto muito importante).
Wilber defende a existência de dois outros tipos de ciência, que seguem o mesmo procedimento formal: A ciência mental ou social (o que os europeus chamam de Geisteswissenschaft) não observa os objetos físicos, mas os significados mentais, que podem ser encontrados em documentos, histórias, mitos, relatos e livros. O significado de um texto não pode ser visto com o olho físico, mas apenas com o "olho da razão". Seguindo os três fios da ciência, a ciência mental é perfeitamente científica. (Lógico, os objetos mentais não são tão concretos quantos os físicos. Assim, as conclusões da ciência mental não podem equiparar às da física. Mas e daí?).
E há um terceiro tipo de ciência, segundo Wilber. Pois afinal a realidade compreende apenas coisas e pensamentos? E o princípio em nós que vê e pensa? O self que vê e pensa não pode ser visto e não é um pensamento. Mas pode ser abordado experimentalmente na meditação. Assim, a "ciência espiritual" nasce. A meditação e a yoga contam como "ciência" porque elas também seguem os três fios: (1) instrução – sentamos numa almofada por horas, (2) observação – percebemos um estado da mente, e (3) confirmação – discutimos nossas descobertas com colegas que também meditam.
Para concluir: Wilber defende três tipos de ciência, já que a realidade é composta de pelo menos três domínios, e todos os três domínios (matéria bruta - mente - espírito) podem ser abordados de uma maneira experimental e, portanto, científica.

Trecho do texto de Ken Wilber traduzido por Moacyr Castellani e Priscila. 
Obs.: Há no artigo pequenas modificações minhas, realizadas com o intuito de transmitir melhor a ideia do autor.


É O ESPIRITISMO UMA RELIGIÃO?

  

    O Espiritismo está baseado na existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o espaço e que não são outra coisa senão as almas dos que viveram na Terra, onde deixaram os seus invólucros materiais. São esses seres aos quais demos, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos.
    Esses seres, que nos rodeiam continuamente, exercem sobre os homens, malgrado seu, uma poderosa influência; representam um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. Assim, pois, o Espiritismo pertence à Natureza e pode-se dizer que, numa certa ordem de idéias, é uma força, como a eletricidade é outra, sob diferente ponto de vista, como a gravitação é uma terceira.
    Ele nos desvenda mundos invisíveis, assim como o microscópio nos desvendou o mundo dos infinitamente pequenos, cuja existência não suspeitávamos.
    Melhor observado, o Espiritismo vem lançar luz sobre uma porção de problemas até aqui insolúveis ou mal resolvidos. E a prova é que conta como aderentes homens de todas as religiões ou crenças, os quais, nem por isso, renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas.
    Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. Suas consequências são no sentido do cristianismo, porque é este de todas as doutrinas, a mais esclarecida, a mais pura, razão por que, de todas as seitas religiosas do mundo, são as cristãs as mais aptas a compreendê-lo em sua verdadeira essência.
    O Espiritismo não é, pois, uma religião. Do contrário teria seu culto, seus templos, seus ministros. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião propriamente dita. Sem dúvida cada um pode transformar suas opiniões numa religião, interpretar à vontade às religiões conhecidas; mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância. Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar. Eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais realmente úteis serão uma consequência natural. Trabalhando pelo progresso moral, lançareis os verdadeiros e mais sólidos fundamentos de todas as melhoras.
    Visando a desacreditar o Espiritismo, pretendem alguns que ele vai destruir a religião. Sabeis exatamente o contrário, pois a maioria de vós, que apenas acreditáveis em Deus e na alma, agora creem; quem não sabia o que era orar, ora com fervor; quem não mais punha os pés nas igrejas, agora vai com recolhimento. Aliás, se a religião devesse ser destruída pelo Espiritismo, é que ela seria destrutível e o Espiritismo seria mais poderoso. Dizê-lo seria uma inabilidade, pois seria confessar a fraqueza de uma e a força do outro. O Espiritismo é uma doutrina moral que fortifica os sentimentos religiosos em geral e se aplica a todas as religiões. É de todas, e não é de nenhuma em particular. Por isso não diz a ninguém que a troque. Deixa a cada um a liberdade de adorar a Deus à sua maneira e de observar as práticas ditadas pela consciência, pois Deus leva mais em conta a intenção que o fato.
                                                                                                                       Allan Kardec.

Revista Espírita – 1859
Trecho da refutação de um artigo de “L’UNIVERS” em 13 de abril de 1859.

Obs.: O termo "seita" em 1859 não tem o teor pejorativo que hoje o atribuímos.