Segundo
Léon Denis, eminente pensador espírita, a morte é uma simples mudança de
estado, a destruição de uma forma frágil que já não proporciona à vida as
condições necessárias ao seu funcionamento e à sua evolução. O Espírito,
debaixo da sua forma fluídica, imponderável, prepara-se para novas
reencarnações.
Se fizermos um estudo mais
aprofundado sobre o assunto iremos verificar que, por toda a parte se encontra
a vida. A Natureza inteira mostra-nos, no seu panorama, a renovação perpétua de
todas as coisas. Em parte alguma há a morte, como, em geral, é considerada
entre nós; em parte alguma há o aniquilamento; nenhum ente pode perecer no seu
princípio de vida, na sua unidade consciente.
De forma poética afirma Denis: "A
vida do homem é como o Sol das regiões polares durante o estio. Desce devagar,
baixa, vai enfraquecendo, parece desaparecer um instante por baixo do
horizonte. É o fim, na aparência; mas, logo depois, torna a elevar-se para
novamente descrever a sua órbita imensa no céu".
Toda morte é um parto, um
renascimento; é a manifestação de uma vida até aí latente em nós, vida
invisível da Terra, que vai reunir-se à vida invisível do Espaço. Depois de
certo tempo de perturbação, tornamos a encontrar-nos no além, na plenitude das
nossas faculdades e da nossa consciência, junto dos seres amados que
compartilharam as horas tristes ou alegres da nossa existência terrestre.
Seres que choramos e que vamos
procurar no cemitério, muitas vezes, estão ao nosso lado. Vêm velar por nós aqueles
que foram o amparo da nossa juventude, que nos embalaram nos braços, os amigos,
companheiros das nossas alegrias e das nossas dores, bem como todos os seres
que encontramos no caminho.
Para a maior parte dos indivíduos, a
morte continua a ser o grande mistério, o sombrio problema que ninguém ousa
olhar de frente. Para nós, ela é a hora bendita em que o corpo cansado retorna
à grande Natureza para deixar à Psique, sua prisioneira, livre passagem para a
Pátria Eterna.
Temos que ter em mente é que a morte
não nos priva das coisas deste mundo. Continuaremos a ver aqueles a quem amamos
e deixamos atrás de nós. Do seio dos Espaços seguiremos os progressos deste
planeta; assistiremos às mudanças que ocorrem à sua superfície; assistiremos as
novas descobertas, ao desenvolvimento social, político e religioso das nações,
e, até à hora do nosso regresso à carne, em tudo isso havemos de cooperar
fluidicamente, auxiliando, influenciando, na medida do nosso poder e do nosso
adiantamento, aqueles que trabalham em proveito de todos.
Bem longe de afugentar a ideia da
morte, como em geral o fazemos, saibamos, pois, encará-la face a face, pelo que
ela é na realidade. Esforcemo-nos por desembaraçá-la das sombras e das quimeras
com que a envolvem e averiguemos como convém nos prepararmos para este
incidente natural e necessário do curso da vida.
Com efeito, o que aconteceria se a
morte fosse suprimida? O Globo iria se tornar estreito demais para conter a
multidão humana. Com a idade e a velhice, a vida iria nos parecer, em dado
momento, de tal modo insuportável, que preferiríamos tudo à sua prolongação
indefinida. Chegaria um dia em que, tendo esgotado todos os meios de estudo, de
trabalho, de cooperação útil à ação comum, a existência revestiria para nós um
caráter acabrunhador de monotonia.
Não há nenhuma possibilidade de
dúvida quanto a continuidade da vida humana após a morte. Tudo quanto sabemos
sobre a Natureza, as coisas e os seres, mostra-nos que formas vivas estão
sujeitas a morrer, mas não a se extinguirem. A extinção total, absoluta, de
qualquer coisa implica um ilogismo, um contrassenso no campo do conhecimento,
uma violação das leis admitidas. Se, por um lado, nada se acaba nem se perde
tudo se transforma na Natureza, por outro lado, como estabeleceu Kardec com a
expressão: "Tudo se encadeia no universo", ou seja, a nossa concepção possível
da realidade universal é monista, não podemos admitir nada separado ou isolado
na estrutura do Universo.
Podem tranquilizar-se os que "perderam" seres amados na voragem da morte. Nada se perde, tudo se transforma.
O homem deixa o corpo na Terra e passa naturalmente para outra dimensão da
matéria, que se refina e aprimora na escala gloriosa. A imortalidade do ser
humano foi provada sempre nas pesquisas espíritas mais rigorosas, e continua a
provar-se nas investigações atuais em todo o mundo. Há sempre um reencontro à
nossa espera, nas dimensões infinitas do Cosmos. A morte do corpo não é a morte
do ser. Este apenas se liberta da prisão material para prosseguir sua evolução
no tempo e no espaço. Os mortos não morreram, são almas viajoras que partiram
para mundos mais belos e livres.
Ivan L. Costa
Bibliografias:
DENIS, Léon. O Problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 1989.
PIRES, J. Herculano. O mistério do Ser ante a dor e a morte. São
Paulo: Editora Paidéia, 1990.
PIRES, J. Herculano. Educação para a morte. São Paulo: Editora Espírita Correio Fraterno, 1996.